quarta-feira, 30 de março de 2011

Mudança

É.

Cansei

Daquele

Lado de lá

Prefiro este

Aqui, ora pois.

Não

me

peça

para

voltar

pois

meu

canto

é esse

aqui.

Não se preocupe.

É tudo provisório!

terça-feira, 29 de março de 2011

Papo Utilitário

 

PrazerEsperei até que ele concluísse aquela longa e minuciosa descrição de técnicas e aparatos para a prática onanística, que envolvia, entre outros, caixas de ovos e rolos de cartolina, e perguntei:

- Meu irmão, qual a fonte de tanta criatividade?

Ao que ele respondeu:

- Cara, na infância, eu não perdia nenhum programa do Daniel Azulay.

Doravante evitarei, a todo custo, lembrar-me da Turma do Lambe-Lambe.

sábado, 26 de março de 2011

Em Teu Aniversário

Nascestes em 26 de março, poeta. Íntimo da noite, contemplastes o relógio prateado e perdestes a hora de voltar, mesmo depois de tantos retornos sob a chuva congelante.

Não sou digno de prestar-te homenagens, mas não posso deixar de pensar em ti, nesta noite do teu aniversário, quando boa parte do planeta apaga as luzes e, a lua, a uma sublime distância, inunda o céu enquanto chora pelo vazio que deixastes no mundo em 1963.

Teus versos, contudo, ainda nos enchem de emoção. Descansa, poeta. Parabéns, poeta. Obrigado, Robert.

quinta-feira, 17 de março de 2011

Banco, Filas e Salame Bizarro

 

2Sabe quando vamos ao banco com a simples tarefa de pagar uma única conta e, ao chegarmos lá, damos de cara com uma fila imensa? É quando começamos a rezar para tudo quanto é santo, anjo e querubim para que não haja officeboys na fila.

No meu caso, em 98 por centos das vezes, há. Os santos, anjos e querubins já até desligaram a conexão direta entre nós quando o assunto é banco. Lá estou eu, com uma porcaria de uma conta que não posso pagar no caixa automático porque a desgraçada só pode ser paga no banco de origem – onde não tenho conta – e, à minha frente, três officeboys – TRÊS! – com vinte e cinco contas em mãos. Os caras chegam a se escorar no balcão entre eles e o caixa que, na maioria das vezes, envolve-se em um papo para velório.

O pior é que este carma parece se estender ao supermercado. Sabe a fila dos frios? Pois é. Eu NUNCA peço mais que dois tipos de frios – queijo minas e peito de peru defumado – até mesmo porque lá não encontro mais nada que eu possa chamar de saudável. À minha frente, tem sempre um(a) desgraçado(a) pronto parta pedir duzentAs gramas (sic) de pelo menos oito itens. Coisas das quais nunca ouvi falar. Outro dia ouvi uma criatura pedir, entre os vários itens bizarros em sua longa lista, duzentAs gramas (sic) de salame siberiano. Siberiano?! Desde quando produz-se salame na Sibéria?! A criatura infeliz conhece salame siberiano, mas não sabe que “grama” como medida é masculino? Não me estenderei nisso, mas tratava-se de uma senhora gorda, dessas que provavelmente se queixam do colesterol.

Não quero tirar o direito de ninguém comprar quantos itens bem quiser, pagar quantas contas precisar ou até falar um português questionável. O que não entendo, entretanto, é por que não se criam filas distintas. Por exemplo, nos bancos, deveria haver um caixa para até duas transações, outro para mais de duas transações. O mesmo no setor de frios do supermercado. Dessa forma poderíamos evitar que a ida ao banco ou ao supermercado fosse um carma para todos.

sábado, 12 de março de 2011

Coisa de Barbearia


Minha quinzenal visita à barbearia é o único momento em que leio o jornal. O de papel. É lá onde eu me dou conta mais intensamente de que estou envelhecendo, e não é somente porque sem as lentes eu não conseguiria ler o jornal. De papel. Corto o cabelo no mesmo local há 12 anos e, com os anos, percebo a reduzida quantia de cabelos que caem na capa vermelha emborrachada em volta de meu pescoço. Não leio o jornal durante, mas antes do processo, enquanto aguardo minha vez. Durante o processo estudo a queda. Do cabelo. Cada vez mais grisalho. E da pele facial. Cada vez menos rija. Leio então suas linhas.
Que leitura formidável, então! Leio algumas passagens do primeiro capítulo e a descrição do garoto com menos de um metro totalmente ereto na palma da mão de um cara sorridente que o chama de amigo. Amigos que não se conheceram o bastante. Um amigo desperta ao som do derradeiro pa-pa-pa-pa do Esporte Espetacular e dá falta do tapete de pelos do peito do outro amigo onde repousava a cabeça. Foi-se. E foi-se sem que se conhecessem melhor.
Pulo então para capítulos repletos de pontos: no queixo, que se encontrou com o para-peito da janela. Na extremidade superior esquerda da face, próximo ao olho que não viu o obstáculo e encontrou-se com o mármore branco das escadas daquela varanda. Não faltam pontos sequer na cabeça, que chocou-se contra a quina de jacarandá, capa em volta do pescoço, faz-de-conta que é formiga atômica.
No título do capítulo quatro, há uma ilustração. Um trem de chocolate. Do tamanho da mesa. Velinha e presentes. O polegar da mão direita encolhido na palma para que todos vejam o que é celebrado hoje. Palmas para ele.
Lá pelo capítulo oito, as linhas descrevem outra casa, outra varanda, novos pontos. Pontos parágrafos. E de seguimento. Na mesma linha, travessão. E mulheres generosas. Umas na cozinha, outras frente à lousa. Algumas grávidas. Prenhas de sonhos e ignorantes quanto ao que o tempo já concebeu para seu futuro. Era uma vez histórias de terror. Era uma vez sustos noturnos causados por portas abrindo-se sozinhas. Era uma vez infância. Era só uma. Uma dessas, apenas uma vez.
São capítulos com discos vermelhos de vinil, rainhas do milho, rainhas do mar, iaras, marias e monicas. E aparece também um careca quase irreconhecível, com a cabeça inchada de tanto trabalhar ao sol com a enxada, feliz por entrar no quartel. Este se foi sem nunca ter ido. Não se tem notícias. Largou a enxada e ergueu um muro. De concreto. Por lá perdeu-se.
Um capítulo traz um serzinho lindo, com os olhinhos azuis que sorri apenas quando vê o tio. O tio que agora vai ter um sobrinho-neto de cuja gestação aquele serzinho lindo hoje se ocupa. É mais um capítulo, certamente ainda muito distante do epílogo.
Entre as muitas ilustrações, há um esboço daquela que recebeu nome de cesta de flechas escondendo-se no breu do quarto onde deu início ao tórrido caso de amor que perduraria a vida inteira, com aquele ruivo delgado e que provavelmente a deixará sem ar nos capítulos futuros.
Capítulo 27: a paixão e o completo investimento de tempo por quem não merecia sequer um segundo de atenção. Grandes lições, marcas implacáveis.
Capítulo 33: o amor pelo amor. Amor de ser humano. A mais doce, generosa, cheirosa e charmosa das criaturas. Trouxe Pinóquio, violão, Billy, goiabeira e alegria. Lindas marcas em capítulos com páginas de cores distintas. Destaque especial.
Fico na metade do capítulo 39. O barbeiro já espana, retoca e estica o braço para pegar o espelho. O outro. Quer mostrar a parte de trás. Um ano atrás eu ainda conseguia ver nitidamente a cicatriz. Talvez esteja na hora de trocar as lentes. Certamente é hora de ir.
Mais uma olhada no espelho à frente. Chega de reflexão. Em duas semanas tem mais. Duas semanas a menos. Ponto parágrafo.

sábado, 5 de março de 2011

Mais uma vez, colombina.


E o carnaval chegou! Inevitavelmente, lembro-me de nossa triste e solitária colombina, que envelhece, ressequida, sem afeto e amor. Seu resquício de juventude ainda a impulsiona a encher a cara de maquiagem e, mais uma vez, fazer de conta que é amada, desejada, querida.


Terá nossa colombina consciência de que o amor e o desejo a ela dirigidos são cobertos por uma densa névoa etílica e viral?
Seria tanta maquiagem capaz de encobrir-lhe as rugas e a maldade, sua vontade de destruir a felicidade alheia?


Colombina, a você, meu silêncio. Deixo-lhe ao encargo do som da bateria, do trio-elétrico, da gritaria. Deixo-lhe com suas marcas de perdas daqueles que partiram atirando-se das alturas. Aqueles gritos silenciosos, sei bem, ainda ecoam em seus ouvidos. Aquele corpo espatifado no chão é o símbolo de sua herança genética de destruição, do ódio e da vingança imbecil e descabida. Está em seu sangue. Uma destrói famílias; outra destrói a si mesma. E você, colombina, já destruída,  correndo contra o tempo já há muito perdido, tenta amortecer a própria queda ocupando-se em tentar destruir a felicidade de outrem.

Minha felicidade, todavia, não depende do som de trios elétricos, tampouco de baterias ensurdecedoras.

Aproveite. Não lhe restam muitos verões, colombina. Falta pouco para que sua invisibilidade ou quem sabe até sua ridícula decrepitude assolem  e lhe aflijam.  

Aproveite as cores, pois na quarta-feira, tudo voltará às cinzas. Tudo cinza nessa sua vida imersa em um lodo de insignificância.

Bom carnaval!

sábado, 12 de fevereiro de 2011

As irrealidades da vida em tempos de reality shows



Lembro-me de ter acompanhado apenas a primeira edição do BBB, em 2000. Ainda sinto uma enorme dificuldade em compreender o que faz com que pessoas cultas e instruídas, de classe média/média-alta,  assistam a uma coisa dessas. Essa porcaria criou – ou ampliou – um voyeurismo descabido, a necessidade de ocupar-se da vida alheia. Sinto isso na pele, no dia-a-dia. “Amigos” de braços delgados fazendo recorrentes comentários jocosos sobre meus bíceps desenvolvidos.  “Amigos” que se dizem “descolados”, “modernos” ligando-me no dia seguinte a uma bebedeira para dar lições de moral, em um tom pasteurizado de psicólogos estadunidenses de TV, assustados por testemunharem o breve, espontâneo – e real – verter de lágrimas em um momento clara e etilicamente humano.
Há muito não assisto aos canais abertos. Meu pacote de canais a cabo, de tão reduzido, é desprovido dos canais de filme.

Não saberia identificar exatamente o porquê, mas perdi o interesse pela TV faz muito tempo. Acho insensato o fato de ser obrigado a assistir a um comercial da infame Colgate a cada dez minutos em um canal pelo qual eu pago. Não aguento a dublagem de quinta-categoria de atores mambembes tentando convencer-me de que sou um monstro vulnerável a doze problemas bucais. Nem sei como ainda consigo dar beijo de língua.  

Igualmente insensato é ser obrigado a passar boa parte das manhãs de sábado assistindo, nos mesmos canais fechados, às propagandas da não menos infame Polishop, que trata todo o mundo como imbecil, burro e quadrúpede, repetindo as mesmas informações sobre a porcaria anunciada umas duzentas vezes. E não é só isso! E tem mais! Ligue agora! Desligo o televisor na hora. Não acredito na qualidade de nenhuma daquelas tralhas. Como a Colgate, que cria – lê-se “impõe” – uma necessidade por meio do medo e do pavor, a Polishop cria – lê-se “impõe” – uma necessidade por meio da falsa sensação de vazio, com seus produtos que apenas farão volume na cozinha e atravancarão outros cômodos da casa, fadados a um destino de obsolescência.
Meu ceticismo estende-se à mídia escrita. Nutro um desprezo veemente pela revista Veja por um motivo simples e de fácil compreensão: certa vez postei um comentário no site da revista e os mantenedores da página o adulteraram, mudando completamente o sentido da mensagem. Deixei outro comentário, reclamando do fato, e esse, como o outro, também foi adulterado e lá permaneceu.
Estamos perdidos, caso ainda acreditemos em valores éticos e morais. O que faço é minha parte, ínfima, mas faço: afasto-me de pessoas que tentam se ocupar dos meus bíceps e incomodam-se com minha humanidade. Jamais comprarei qualquer produto da Polishop. Na minha casa não entra nenhum produto que venha da empresa Colgate. Só para dar uma idéia, usei o sabonete Protex por mais de dez anos, até que descobri que era do grupo Colgate. Aqui em casa já não há mais nenhum resquício desse sabonete. Não leio a Veja nem de graça. Leio as notícias online e tento tirar minhas próprias conclusões, sempre suspeitando da idoneidade das fontes.
Entristeço-me por me dar conta de que não cresci para viver NESTE mundo que agora encontramos. Ainda sofro com o processo de adaptação. Valha-me Deus.

domingo, 6 de fevereiro de 2011

Frase da semana

"Quero morrer dormindo, como meu avô, e não gritando como o pessoal que pegou carona com ele."

sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

Tocando pra Frente




Queria muito dizer que orgulho-me de tudo que já fiz. Maior inverdade, não obstante, jamais haveria se assim eu insistisse em fazer.
Obcecado que sou, vivo em nível atômico e molecular o tormento causado pela culpa.  Eis minha sina e meu desafio: despir-me do arrogante desejo de ser perfeito.
Creio que à medida que padeço e expiro, no meu processo doloroso de reflexão sobre o aqui e o lá, gravo a ferro em brasa ou, quem sabe, à palmatória de aço, a triste e pesada lembrança do que fiz e, mais que meramente lamentar, esforço-me para desaprender o itinerário que me levou à desgraça.
Lá não volto. A ponte que liga o então ao agora permanece, mas apenas no nível cognitivo. Mais cedo ou mais tarde, aprendo.

sexta-feira, 2 de abril de 2010

Despedida


A hora já avançara muito mais do que sinalizavam meus sentidos. Na verdade, eu estava confuso, embriagado pelo momento, aquele recorte ímpar de uma realidade turva. Sentia um cheiro de seis horas da manhã - quando o ar ainda se encontra denso de orvalho e livre do magnetismo das preocupações do mundo; aquele ruído insistente, entretanto, lembrava-me a hora do rush. A leveza n’alma, não obstante, pouco combinava com a sofreguidão de qualquer alma desgraçada tentando voltar para casa. Sentia-me em casa, apesar do caráter tão estranho imposto pelo cenário.

Aproximei-me da janela e abri as cortinas. Foi quando eu me dei conta de que já passavam das seis. Da tarde. Era quase noite. A linha ao fundo, em sua ida e vinda, seu subir e descer, trouxe-me de volta à luz de que encontrava-me a navegar. A luz da cidade ao fundo refletia-se nas águas quase planas, não fosse pela pequena turbulência que se originava no canto superior direito daquela moldura viva. Era seu barco. Partia para algum canto neste mundo, escondido pelo canto superior direito de minha moldura.

Não me senti triste. Ao contrário, senti-me aliviado. Fui tomado pela profunda consciência de que chegara sua hora de ir. Este barco já não mais comportava suas marcas negativas, seus arroubos de ódio, sua fome de matar, vingando-se de todo o mundo por ter sido morto por um só. Pela primeira vez senti que caso seu barco despontasse de volta daquele canto superior direito de minha moldura, eu não pensaria duas vezes antes de carregar o canhão.

Vi desaparecer naquele canto um barco deveras pequeno transportando um ego gigante, pronto para digladiar com outros, pois aqui neste barco ninguém mais o temia. Cerrei os olhos e torci para que nenhum pirata neste mundo vivesse impune. Senti uma forte convicção de que pouparia minha bala e meu canhão, uma vez que outros barcos já apontavam contra o seu.

Cerrei as cortinas e me virei. Era tudo o que os cinco centavos me ofereciam de show naquele pequeno odeon de vida privada. Rumei para a cozinha e fui tomar um café.

quarta-feira, 17 de março de 2010

São Patrício





Apóstolo da Irlanda, levou o Evangelho àquela nação, que havia retornado ao paganismo.

Converteu os chefes dos clãs e, a partir deles, suas famílias. Fundou mosteiros e de tal modo intensificou o espírito católico na Irlanda que esta foi chamada "Ilha dos Santos".

domingo, 14 de março de 2010

Faltou raça ou ração?



O cara foge da escola porque "sonha" em jogar futebol "profissionalmente". Na infância, quando era para cuidar dos estudos, estava no terreno baldio, jogando bola. 
Agora, a pergunta que não quer calar: O Dodô não deveria ser demitido hoje?
Quem é o energúmeno que perde DOIS pênaltis numa partida? 
Esqueceram de dar a ração para esse quadrúpede? Nessas horas dá saudade do Animal... 

Ilusão de Ótica



Havia muito que eu não lhe via. Pareceu-me estranho como seu rosto mudou. Que ponteiros implacáveis! Como se não bastasse, vi no Discovery Channel que depois dos últimos fenômenos tectônicos no Chile, a Terra passou a girar mais rapidamente e os dias ficaram sutilmente mais curtos. É provável que eu tenha mudado também. Ah, os olhos... Sempre prontos para nos enganar a cerca do que nos pertence exclusivamente.  Que relação estranha essa que se estabelece entre o espelho, os olhos e o cérebro. Assim como não vejo nem sinto o movimento do planeta, não percebo o movimento em meu rosto. Descendente. Você percebeu. O meu. O espelho quebrou. Não servimos mais de espelho um para o outro. A imago sua que guardo ou sua imagem que chega-me à retina? A imago. Ela sim lembra-me de um tempo que o cérebro insiste em arquivar no fichário “ANTEONTEM”. Mas já faz muito tempo. Amigos não deveriam ficar tanto tempo sem se ver... 

segunda-feira, 8 de março de 2010

"Sou forte, mas não chego aos seus pés"



Não vou falar de suas formas e curvas que tanto nos inspiram. Não vou falar de seu sorriso que nos deixa de quatro. Quero apenas e simplesmente ratificar que sem você o mundo teria menos cores, menos sabores. Sequer estaríamos aqui. Quero expressar minha admiração pela sua fibra, sua quase onipresença em nossas vidas e sua generosidade. O homem que não se encontrou pela primeira vez no fundo dos olhos de uma mulher, perdeu-se nele para sempre.
Salve 8 de Março! 

sexta-feira, 5 de março de 2010

Se beber, não dirija.


- Caiu um mosquito no seu copo.
- Oi?
- Um mosquito. À essa altura já se afogou na sua cerveja.
- Tá falando sério?
- E eu lá tenho cara de quem brinca com uma coisa dessas?
- Como assim, "uma coisa dessas", cara? Foi só um mosquito.
- Só? Se você conseguisse ouvir os gritos dele ao se afogar nesse poço de álcool, não diria isso.
- Por acaso VOCÊ ouviu? Ouviu o imbecil gritando?
- Ouvi sim. Com o ouvido da alma.
- Nossa, que alma nobre! Só falta agora você me dizer que seu anjo da guarda é um pernilongo.
- Como posso saber? Nunca o vi.
- Nem com os olhos da alma?
- A alma é cega, rapaz.
- Pobre alma. Bom, pelo menos ela escuta né?
- Sei lá!
- Peraí... você não acabou de dizer que sua alma OUVIU o desgraçado do mosquito gritando cerveja abaixo?
- Foi metáfora, cara, Me-tá-fo-ra, saca?
- Só não mando você meter essa me-tá-fo-ra por entre o desfiladeiro de sua retaguarda em respeito a esse mosquito que, segundo você, acaba de morrer em meu copo.
- Ah, então você agora acredita no destino infeliz desta criatura.
- ...
- Você vai beber?
- O quê? A cerveja? Pirou? Então você acha que vou beber esse troço com esse cadáver boiando?
- Cara, você nem olhou pro copo ainda. O mosquito afundou. Não tá boiando, não.
- Você beberia?
- O quê? A cerveja? Não. Vai que eu engula o morto e herde seus carmas.
- Ah, essa agora. Carma. Vai com carma, meu amigo. Muita carma nessa hora!
- Você acha tudo muito divertido né? Não leva nada a sério.
- Ah, meu amigo, não vou ficar aqui escutando você filosofar sobre o carma dos insetos. Vou deixar você com seu carma e vou pra minha cama. Fui. Aí. Dez paus. Paga minha parte. Pode ficar com o troco.
- ...
- ...
- Inté!
- Ih, rapá...
- O quê foi?
- Acho que o rio que passa por entre o desfiladeiro de SUA retaguarda transbordou.
- Putz... tá de carro aí? Dá pra me dar uma carona?
- Tô, mas vou pegar um táxi.
- Pirou? Por que, maluco?
- Maluco, eu? Você passa a noite sentado num banco molhado, depois quer uma carona com um cara que ouviu os gritos de um mosquito e EU é que pirei? Fala sério.
- Putz... só dá maluco.

quinta-feira, 4 de março de 2010

Guerra das Camisetas

Fiquei sem adjetivos... Melhor dar logo nota mil para os caras. 


quarta-feira, 3 de março de 2010

Vlw! Depois eu deixo um scrap!





Recentemente um amigo me convidou para ir à festa de aniversário de uma amiga dele, que eu não conhecia. Fiquei curioso para saber um pouco mais sobre a aniversariante e acabei visitando seu Orkut. Tive uma enorme surpresa ao constatar que a garota tem 932 amigos. Novecentos e Trinta e Dois! 932?!
Além de tímido, não sou muito dado a eventos sociais.  Tenho apenas dois grandes amigos com quem me sinto muito à vontade de simplesmente me sentar e beber, ou assistir a um jogo, ou jogar alguma coisa no PS sem ter que conversar sobre nada, a menos que os três estejam verdadeiramente com vontade de falar. Tive uma estranha sensação de que ir à festa seria a grande furada do primeiro semestre de 2010. Acho quase sempre um saco estar no meio de um aglomerado de gente que parece ter o compromisso inexorável de dizer alguma coisa inteligente ou risível. Nesses programas, em geral, formam-se basicamente duas espécies de grupinho: (1) o de pessoas batendo altos papos “cabeça”, discutindo o sexo dos anjos, disputando quem usa o maior número de jargões técnicos e palavras proparoxítonas, e (2) o de pessoas para quem tudo ou qualquer coisa serve de motivo de piada. Em ambos os casos, percebo, o que essa galera está tentando fazer é muito simples: manter a distância.  Analisando-se de longe, vê-se um enorme número de falantes e quase nenhum ouvinte. São muitas bocas para poucos ouvidos.
Imaginei então este cenário duplicado, visto que se tratava de uma garota com 932 amigos no Orkut. Novecentos e Trinta e Dois! Certamente eu deveria esperar uma festa para cerca de 100 no mínimo. A sintomatologia que produzi ao pensar nisso foi desde uma vermelhidão epidérmica à sudorese descabida. Entretanto, meti as caras e lá fui eu.
Tamanha foi minha surpresa ao chegar à festa e encontrar apenas dez convidados. DEZ. 10! “Que dez!”, pensei aliviado, sem deixar, entretanto, de me sentir intrigado com aquilo. Apesar do pequeno número de pessoas, formaram-se os dois grupos supracitados. Resolvi evitar o grupo dos pseudo-intelectuais de óculos com armações pretas, visto que eu não estava muito a fim de avaliar o futuro dos atuais meios de comunicação frente à Transmídia. Cara, adorei a experiência tridimensional de Avatar, mas não me sinto suficientemente inspirado a discutir, numa festa,  a falta de profundidade da narrativa ou a legitimidade do argumento. Eu queria mais era curtir a caipirinha, que estava maravilhosa, e falar sobre os sobressaltos que experimentei durante a projeção do filme, desde os trailers, quando apareceu uma joaninha voando quase que sobre meu nariz.  
A caipirinha foi de grande auxílio no outro grupo, tornando tudo muito mais engraçado do que era de fato. Chegou um momento em que estávamos rindo de nada. Um cara no grupo não conseguia parar de criar piadas. Era uma atrás da outra.
No Blackberry da aniversariante, a cada três minutos chegavam mensagens de felicitações, todas recebidas com enorme animação e devidamente compartilhadas com alguns dos presentes. Algumas das mensagens eram tão fortes e tocantes, que compensavam pela ausência do remetente.
Será que é isso mesmo? Será que o extremo é o que há? Onde está escrito que devo agir como um acadêmico ou um comediante numa festa? Não seria possível falar sobre banalidades, sem medo de parecer o que somos de fato: pessoas comuns? O que significa ter 932 amigos no Orkut, que enchem a caixa de “scraps animados” e o Blackberry com milhares de mensagens do tipo “parabéns pra você”, “você é o máximo”, mas que não se dão ao trabalho de pelo menos pegar a droga do telefone e ligar? Será que tanta transmídia, tantos MSNs, tantos Orkuts e Facebooks estão a serviço da solidão acompanhada?
Não sei. Só sei que ao deixar a festa, eu tinha tomado seis caipirinhas de limão, passado meu MSN para cinco – que gostariam de continuar a gargalhar de longe – e pensado três vezes, durante a “conversa”: “ainda bem que não estaremos juntos quando o riso acabar”.